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Será que estamos querendo simplificar demais as coisas?

Vivemos num mundo complexo? Claro que sim. Diversos fatores nos trouxeram a este ponto de evolução: globalização, hiperconectividade, aceleração da vida, abundância de dados, entre outros.

Talvez tenhamos chegado a um ponto de saturação de informações o que fez com que autores de livros de gestão marketing e “gurus” de negócios tenham cunhado o lema: KISS (Keep it simple, stupid). É uma obceção de muitos – e me incluo nesta lista – de buscar soluções e alternativas simples.

Além disso, vemos muitas start-ups e empreendedores trazendo soluções facilitadas e simplificadas para grandes problemas de negócios. De fato, há um mantra de que se não for simples não funcionará. No Vale do Silício nem tente marcar uma reunião com um investidor se o seu novo aplicativo ou modelo de negócio não for a prova de bobos (o famoso “for dummies”).

Gigantes nasceram (ou ressurgiram apoiados) – talvez até liderando este movimento – Apple, Google são ícones do lema “mantenha-o simples”. Mais recentemente AirBnB, Uber demonstraram a força da simplicidade e do foco em facilitar a vida do consumidor. Localmente temos o exemplo do NuBank: um banco 100% online cujo cartão de crédito não possui anuidade, o atendimento é todo digital entre outros diferenciais e facilidades.

Temos tantos exemplos deste movimento de busca incessante de simplificação das coisas que tentar apresentar pontos contra esta visão pode parecer contraditório ou ingênuo de minha parte. Mas vou destacar algumas reflexões recentes para que você possa chegar a sua própria conclusão.

Primeiro e fundamentalmente, as relações de negócios entre empresas e das marcas com seus consumidores buscam tocar e convencer … pessoas! E pessoas são psicologicamente complexas – que o digam os psicólogos e terapeutas de plantão! Que o diga Nelson Rodrigues!

Então como vamos ser efetivos no entendimento do comportamento humano se super-simplificamos as pessoas? O marketing comportamental (behavioural targeting por exemplo), a segmentação de base de clientes, as personascriadas são todas tentativas de conhecer e entender a complexa mente humana para uma abordagem mais eficiente da comunicação. Vejo por minhas próprias decisões de compra que fatores aleatórios (e imprevisíveis) podem mudar minhas preferências. Não sou um robô pré-programado, mas talvez existam pessoas como meu irmão -engenheiro, metódico, disciplinado e avesso a supresas inesperadas – que sejam mais fáceis de abordar com este grau de simplificação.

Segundo, há problemas no nosso dia a dia de trabalho, que exigem análises profundas para conseguirmos chegar ao xis da questão. Encontrar soluções simples para problemas complexos muitas vezes não é possível, mas a obstinação de manter tanto a pergunta quanto a resposta simples pode levar a conclusões incorretas. Deveríamos identificar estes momentos que exigem um maior detalhamento e que requeiram o cruzamento de dados de diferentes fontes, discussões alongadas e debates construtivos para nos trazer insights alinhados com a realidade e o tamanho real do problema. Levante a mão quem nunca viu uma discussão de uma promoção ou corte de preço ser definido em uma reunião de 30 minutos e a discussão sobre qual o brinde de final de ano levar meses de debates acalorados?

Porque simplificas? Juniorização, pouca educação, internacionalização

Eduardo Muniz é Sócio-Diretor da SIMPLIE – empresa de inteligência com uma solução full-service para o e-commerce – e Professor do MBA de Marketing Digital na ESPM e FGV.

2018-12-03T20:05:52-03:00