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As lições de empreendedores e modelos: O aparente sucesso ou sucesso aparente?

Sempre lembro de algumas lições que aprendi desde cedo sobre como avaliar o sucesso. Estas aulas em contextos diferentes, de pessoas diferentes, que nunca suspeitaram da contribuição que me deram, me ajudaram ao longo da carreira (e da vida) a desconfiar dos aparentes sucessos e entender que há muito, muito mais por trás até chegar ao topo.

Não me esqueço, ainda na universidade, da palestra de um banqueiro de investimentos que dizia que era muito fácil se vender num mercado em alta: “O fundo rendeu 10% este mês…”. Difícil era o mesmo discurso no Mercado em baixa: “O fundo caiu 5% este mês”.

A primeira lição foi que crescer pouco num contexto em que outros crescem muito não é exatamente um mérito. Por outro lado cair pouco num momento em que estão todos caindo muito é um sinal considerável de competência e, porque não, sucesso.

Anos antes, eu estava treinando para tentar uma bolsa de estudos através do tênis, numa universidade nos Estados Unidos. Além da parte acadêmica excelente que podia ser demonstrado através de notas e provas específicas, precisava enviar uma fita de video (naquela época não havia internet, nem YouTube para facilitar) mostrando meu jogo.

Aquela fita deveria mostrar o melhor de mim dentro da quadra. Entre golpes perfeitos, movimentos impecáveis, força nas bolas, precisão na colocação e disposição física estaria meu passaporte para a univesidade. Era como se fossem me julgar por uma fita de melhores momentos. Será que era o suficiente? Seria justo? Me dei conta ali que havia muito mais por debaixo do iceberg que simplesmente sua ponta. Há muita coisa por trás do aparente sucesso que não vemos.

Estes últimos tempos tenho refletido bastante sobre empreendedores bem sucedidos e as estórias de esforço, trabalho e, porque não, sacrifício que passam por trás das cameras e que poucos se dão conta. E fazendo uma analogia pouco provável, é exatamente o mesmo percurso que as modelos passam: as pessoas vêem o glamour, as festas, os eventos e não sabem do que elas sofrem para chegar até o sucesso.

Frequentemente quando estes empreendedores saem na mídia, são para contar uma conquista, uma marca, um sucesso! O público ou a imprensa não querem acompanhar o dia a dia de dificuldades e superações destes heróis da resistência no Brasil, as vitórias sobre a burocracia de alugar uma sala ou abrir uma conta no banco, das horas com contadores e advogados para tentar andar dentro da lei. Lei não. Dentro das leis. São muitas. E não raro, descobre-se algo que mudou recentemente e o empreendedor precisa corrigir o pequeno legado para voltar a andar na linha. Há muitas pegadinhas que tentam a todo momento derrubá-lo.

Ouvi de uma amiga modelo que a vida de modelo é 5% glamour e sucesso e 95% “ralação”, sacrifício e, no caso delas, frequentemente dor. Castings às 5h00 da manhã, trabalhos que nunca exisitiram, recusas de trabalho sem explicação porque outra modelo foi a escolhida, cachês que desaparecem ou cujos valores são menores do que os combinados. Isso sem contar as inúmeras tentativas de sedução, ameaças e chantagens de bookers, fotógrafos, donos de agência e clientes para conseguir o tão sonhado trabalho.

Menos de 10% das start-ups no Brasil seguem existindo no 2o ano. Das que sobrevivem, somente 60% conseguem avançar até o 3o ano. Das centenas de meninas que vêm do sul e do interior tentar a “vida de modelo” em São Paulo, poucas, pouquíssimas conseguem seus 15 minutos de fama e sucesso. Muitas quebram, desistem, se desiludem, enquanto outras terminam num caminho sem volta de drogas e prostituição.

No mundo do empreendedorismo talvez o fim não seja tão dramático quanto o das modelos, mas há uma parcela de investidores, agentes e entidades governamentais que iludem e roubam do jovem empreendedor sua energia e capacidade de seguir adiante em busca do sucesso.

Para ir buscar um sonho encantado de abrir seu próprio negócio ou virar a próxima Gisele é uma tarefa que vai muito além do que sai nos jornais, revistas e TV. Não há recompensa sem esforço. Não há sucesso fácil ou barato. São horas longe da família, acordando cedo, dormindo tarde, dúvidas e questionamentos sobre sua própria capacidade ou beleza, sacrifícios de datas importantes em que não se pode estar presente ao lado dos amigos e parentes.

Realmente existe um lado que raramente é reportado quando se lê sobre o sucesso, um lado feio, duro mas muito necessário. Uma parte que fica por debaixo da água mas que permite sustentar aquela ponta que fica aparente. Alguns desavisados ou invejosos ao se depararem com este sucesso aparente vão soltar um “deu sorte” ou um “aquele ali vem de boa família”.

Pois é, as aparências podem enganar. Mas quando o sucesso aparece entendam que a sorte foi em não desistir e a “boa família“ muitas vezes está por debaixo da água apoiando o empreendedor, a modelo, nas suas duras jornadas rumo ao topo – seja este topo qual for.

Eduardo Muniz é Sócio-Diretor da SIMPLIE – empresa de inteligência com uma solução full-service para o e-commerce – e Professor do MBA de Marketing Digital na ESPM e FGV.

2020-02-28T19:48:36-03:00