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As intrigantes lições das olimpíadas

Passei as últimas 3 semanas trabalhando como voluntário nos Jogos Olímpicos sabendo que seria uma experiência para a vida toda. E realmente foi. Só não imaginava que desta experiência iria tirar observações e aprendizados importantes para aplicar nos negócios também.

Ao começar a preparar este artigo, percebi que alguns insights iam além da aplicação prática mas que abrangiam também uma compreensão do comportamento do brasileiro. Apesar de viajar muito, pelo mundo inteiro, a trabalho e a lazer, esta foi a primeira vez que estive com todas as nacionalidades juntas num único lugar, e justamente na minha cidade natal.

Para que entendam um pouco a estrutura presente, os Jogos Olímpicos foram organizados pela Rio 2016, uma instituição formada para receber e gerir os recursos para a realização do evento. A equipe da Rio 2016 já estava formada desde os Jogos de Londres 2012 onde estiveram presentes para observar, fazer anotações e aprender – assim como havia um grupo de japoneses no Rio reportando tudo para o comitê de Tóquio 2020.

O trabalho de estabelecer os padrões, regras e processos a serem seguidos pelo comitê local é do Comitê Olímpico Internacional que supervisiona, a cada momento, todas as etapas do Projeto Olímpico da cidade. Durante os jogos há observadores do COI o tempo todo vigiando o trabalho dos voluntários de todas as áreas de serviço: tanto as deportivas quanto as de apoio às delegações – onde eu fiquei alocado. Há procedimentos e manuais para tudo. Chegamos já sabendo como responder e reagir a quase todas as situações.

Os meses anteriores às Olimpíadas foram de treinamentos online (um total de 4 rodadas com 3 cursos cada um) e entrevistas via skype em inglês, francês e italiano. Na última semana, o treinamento presencial na Vila Olímpica para um “reconhecimento de terreno” e as últimas orientações em relação a segurança dos Jogos. Apesar de diversos amigos estivessem apostando em um atentado ou ato terrorista durante os Jogos, eu estava absolutamente tranquilo com as providências de segurança que tomaram e que começam anos antes – e que por questões óbvias não são conhecidas pelo grande público.

Minha primeira grande observação, um tanto óbvia, é que para o sucesso de um evento como este é fundamental o planejamento com visão de longo prazo, uma preparação intensa e padrões de excelência conhecidos a serem atingidos. Todo o aprendizado de Londres e Pequim foi trazido para o Rio. E daqui seguirá para Tóquio. Temos que deixar de acreditar que fazendo as coisas de qualquer jeito e de última hora conseguimos resultados tão bons quanto se tivéssemos planejado bem todas as hipóteses e cenários com antecipação. Quantos de nós trabalhamos em empresas (ou para empresas) que o senso de urgência “para ontem” nos impede de executar todas as etapas necessárias para se atingir excelência global? Você realmente acha que o Bolt conquistou o ouro olímpico naqueles 9 segundos e pouco de corrida?

Pela primeira vez na história, o Tajiquistão, país localizado no centro da Asia (fronteira com o Afeganistão), ganhou um ouro olímpico. A vitória veio no arremesso do martelo, com Dilshod Nazarov, que poucos sabem, era a sua 4a Olimpíada. Ou seja, ficou 16 anos treinando e lutando para finalmente em sua última participação, ganhar uma medalha. E de ouro. O sucesso não é instantâneo. É um processo de várias etapas, muitas das quais não se vê.

A falta de tempo é sempre o argumento para fazer as coisas na gambiarra – palavra da moda durante os Jogos. O tempo curto gera um efeito cascata que atinge várias esferas nas empresas e que transborda para seus prestadores de serviço. Se ao menos tivessem um documento com os aprendizados de situações ou campanhas anteriores, o famoso “jeitinho” poderia até ser mais eficiente. Mas a alta rotação de pessoas, a falta de procedimentos claros e documentos com informações importantes, além do descompromisso com o longo prazo, faz com que percamos oportunidades de atingirmos resultados muito mais significativos. Não se monta uma Olimpíada em poucos meses, com pessoas que nunca participaram dos Jogos ou desprovidos de informações sobre os processos que devem cumprir. O improviso e a gambiarra surgem de ir ao limite das regras e não de operar todo o tempo no caos.

Uma segunda observação importante é que ao treinar os voluntários, divulgar seus padrões de excelência, compartilhar os manuais e guias de atuação, o comitê olímpico estabelece uma linha de comunicação direta com todos os envolvidos, em tempo real. Praticamente todos voluntários receberam um celular tendo uma pessoa a quem se reportar. Havia um formato padrão de como deveríamos reportar os incidentes. Preenchíamos um documento com informações básicas sobre como relatar um fato. Desta forma, todas, absolutamente todas, as pessoas na Vila Olímpica, em todas as instalações tinham o poder de alertar e reportar qualquer problema, ou potencial problema, para providências imediatas. Era uma espécie de mini “briefing” olímpico com informações padronizadas e que ambas as partes (emissora e receptora) sabiam exatamente o quais dados eram críticos para um reporte completo. Quantas pessoas você conhece que têm preguiça em preencher um briefing ou o envia pela metade confiando que a outra parte conseguirá adivinhar as informações da metade que falta? Comunicação clara, direta e consistente reportadas a uma única central de informações é fundamental para que haja sincronia nas ações preventivas e remediadoras com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Minha terceira e última grande observação das Olimpíadas é em relação ao comportamento dos brasileiros diante de estrangeiros. Parece que o brasileiro dá o seu melhor, mostra o seu melhor, quando há gringos observando. Nos dias de competição vi inúmeras pessoas – não voluntários – ajudando gringos a entrarem no ônibus correto e avisar qual estação de metrô deveriam saltar. Será que ainda é “herança” da cultura do “pra ingles ver”? Digo isso porque nos dias posteriores ao encerramento da Olimpíada notei uma mudança de atitude e uma impaciência incrível com uns com os outros: nos pontos de ônibus, nas ruas, nos taxis. Parecia o conto de Cinderella quando bateu a meia-noite a bela princesa virou a gata borralheira.

Parece que Nelson Rodrigues realmente identificou este comportamento como ninguém: temos um complexo de vira-lata ainda acentuado. Quando estamos entre nós mesmos não nos esforçamos muito para sermos cidadãos melhores. Lembro de uma propaganda recente onde dois brasileiros criticavam a situação caótica do país num quiosque na praia. Quando um argentino se intromete na conversa, concordando com as críticas que havia escutado dos dois, ambos mudam de tom: “que isso rapaz, o Brasil é perfeito. Isso aqui é uma maravilha”. Será que precisamos estar sob o olhar de outro para dar o nosso melhor e sermos melhores?

Houve um episódio enigmático dentro da Vila Olímpica que relato a seguir. Estava conversando com duas voluntárias da Estonia (país no norte da Europa, fronteira com a Rússia) que ao saberem do sumiço do celular de um atleta dentro da Vila Olímpica me perguntaram porque alguém faria isso. Ao ouvir do Chefe da Segurança que coisas como estas são normais e podem acontecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer metrópole, inclusive na Vila Olímpica, Anna, uma das estonianas, contesta: “Normal aonde? Talvez vocês tenham uma forma de pensar diferente mas no meu país não é normal pegar uma coisa que você sabe que não é sua”. O brasileiro precisa saber que está sendo filmado ou observado para dizer que cata lixo do chão, não fura sinal vermelho ou devolve uma carteira achada no chão? O Caceta e Planeta tinha um quadro onde um dos personagens perguntava: “É pro Fantástico”? como se só valesse se estivesse no grande palco. Fora dele, poderia fazer qualquer coisa, responder de qualquer jeito.

Conseguimos organizar e executar os Jogos Olímpicos no meio de uma situação global e local caótica para dizer o mínimo. E ainda assim, fizemos umas Olimpíadas que deixarão saudades. Ao voltarmos para nossa vida “normal” (como meus amigos insistem em dizer) deixamos de ver as provas olímpicas para nos deparamos com os discursos do processo de impeachment. Vimos atletas de diferentes origens nos representar nas competições. Ali estavam os melhores do Brasil. Agora vemos políticos também de diferentes origens nos representando na Câmara e no Senado, teoricamente, o que há de melhor no país. Quando ouvimos o nível do português das “vossas excelências” devemos ficar muito preocupados.

Se no maior palco que podem ter é daquela forma que se expressam não sei se nos resta muita esperança no curto prazo. Afinal de contas, assim como numa prova olímpica não se ganha naqueles poucos minutos que todos estão vendo, a vitória é fruto de um planejamento de muitos anos e execução cuidadosa no momento certo.

Não há como replicar integralmente minha experiência como voluntário, mas como seria bom se pelo menos algumas das lições do legado olímpico pudessem ser utilizadas para nossa reflexão.

Eduardo Muniz é Sócio-Diretor da SIMPLIE – empresa de inteligência com uma solução full-service para o e-commerce – e Professor do MBA de Marketing Digital na ESPM e FGV.

2020-02-28T19:45:57-03:00