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A argentinização do brasil.

Parti do Brasil em Janeiro de 2009 rumo a Buenos Aires com algumas dúvidas e cheio de preconceito sobre a região que me esperava. Estava por assumir responsabilidade sobre América Latina na área de marketing digital da DIRECTV Panamericana.

Entre os preconceitos muitos estavam relacionados a falta de conhecimento de marketing digital, baixo profissionalismo e atitude preguiçosa da maioria de nossos vizinhos latinos, de uma maneira geral.

Naquele momento o mundo entrava em uma crise sem precedentes (pós estouro da bolha imobiliária dos EUA em 2008). O Brasil parecia alheio a toda esta tempestade e seguia firme em seu crescimento, o que aumentava a visão de que o Brasil era a única coisa que prestava e o resto eram “cucarachos”.

Por coincidências da vida, no mesmo mês iniciei um MBA Internacional onde tive a sorte de contar na minha turma com dois colombianos, uma peruana e uma mexicana. Minhas experiências latinoamericanas eram acompanhadas de perto por eles que me ajudaram a interpretar e “traduzir” muito das situações que me deparava e assim eliminar qualquer dúvida. E ajudaram principalmente a manter um senso crítico.

Os “hermanos” por exemplo não acreditavam que eu estava morando na Argentina e o meu país estava na capa da revista The Economist, crescendo a altas taxas, havia ganho o direito de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas entre outras maravilhas como Búzios e Floripa.

Os amigos que lá fiz me ajudaram a entender por que os argentinos eram vistos como “arrogantes”. Segundo eles, aquilo era simplesmente autoconfiança somada a uma herança italiana que se traduzia em discussões e negociações acaloradas e agressivas. Lembrando sempre que a Argentina do pós-guerra, anos 50-60, era uma potência econômica e cultural – vide o apelido de Buenos Aires, a “Paris” do sul, e que até hoje muitos gringos pensem que é a capital do Brasil.

Isso fez com que os argentinos saboreassem esta supremacia durante muitos anos na região fazendo com que outros países sulamericanos olhassem para lá com admiração, respeito e humildade. O que nos traz a uma situação parecida ao Brasil de hoje.

Vale destacar que uma experiência internacional te propicia perceber coisas boas e ruins, que você não notava antes. Ao retornar ao meu país dois anos depois da experiência portenha, notei a diferença de conhecimento, profissionalismo e atitude dos brasileiros. E não foi exatamente positiva.

Fiquei chocado como haviam (havíamos?) parado no tempo. Não houve evolução. Os brasileiros viram a maior onda de oportunidade da História chegar e passar e poucos aproveitaram. Uma grande parte, infelizmente, desperdiçou boas chances gabando-se do status e poder que o momento econômico lhe havia propiciado e minimizando a interação especialmente com latinos, afinal de contas o que poderiam nos ensinar?

Nos esquecemos que a região cresce, na média, muito mais que o Brasil há uma década. Nos esquecemos que no mundo publicitário há anos os argentinos fazem bonito – muitas vezes com campanhas muito mais impactantes e provocantes que as daqui. Nos esquecemos que no mundo digital os maiores caso de sucesso são argentinos: Patagon, Mercado Libre, Despegar. Nos esquecemos que um dos maiores investidores da Era Digital na América Latina era Venezuelano.

Minhas andanças pela América Latina naqueles anos e agora com projetos em diferentes países da região confirmam que meus preconceitos foram extintos. Há profissionais de marketing muito mais preocupados em entender do novo mundo digital do que vejo aqui. É surpreendente a disposição de VPs e diretores de marketing e vendas em grandes empresas em ouvir e aprender sobre o tema. Eles não têm o menor problema em dizer que não entendem e que precisam de ajuda. No México e na Colômbia por exemplo, o nível de discussão sobre mídia programática está bastante sofisticado e avançado.

O nível de profissionalismo do chileno ou peruano por exemplo é notavelmente mais maduro do que o brasileiro – mantém uma postura de humildade quando deparados com uma crítica ou observação ao contrário dos nossos colegas daqui que a primeira reação é desqualificar as críticas, não é? Esta é uma das consequências da juniorização que tanto se discute por aqui: com a falta de gente qualificada, muitos jovens foram alçados a papéis de liderança (gerentes, diretores) que seus níveis de conhecimento técnico e maturidade não eram condizentes com os cargos.

Possivelmente por saberem que ainda têm muito arroz com feijão para comer para chegar ao nível do Brasil, nossos vizinhos estão com mais disposição para estudar e aprender. Me surpreendi ao conhecer, nas minhas aulas de pós graduação, uma quantidade enorme de colombianas que vieram ao Brasil atrás de uma especialização em marketing digital e ecommerce. Ao concluírem seus cursos, voltarão a Colômbia com uma experiência bárbara de um mercado mais maduro e aplicarão os aprendizados por lá. E nós?

Este artigo não é para desqualificar o profissional de marketing brasileiro. É simplesmente uma observação de alguns anos trabalhando com marketing digital na América Latina. Estamos nos tornando soberbos com o assunto num mercado que muda rápido demais para sentarmos em cima do que fizemos e achávamos. É uma nova dinâmica em que tamanho de mercado não é documento mas que inteligência e capacidade de aprender e adaptar é o que ditará o futuro.

Agora que nos toca uma crise brutal, como vamos reagir? Reconheceremos que há muito o que se desenvolver e evoluir ou seguiremos o caminho que nossos hermanos trilharam e que a velha piada vem a calhar: seremos os porteiros que pensam que são os donos do prédio? Ou seremos o dono do prédio que arregaça as mangas e concerta o que precisa? Capacidade para isso temos. Mas o tempo não joga a nosso favor. Veja onde foi parar a Argentina.

Eduardo Muniz é Sócio-Diretor da SIMPLIE – empresa de inteligência com uma solução full-service para o e-commerce – e Professor do MBA de Marketing Digital na ESPM e FGV.

2020-02-28T19:41:05-03:00